quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Unidade entre Católicos e Ortodoxos Russos?

Esclarecimentos de S.Exa. Metropolita Hilarion

Acredito que todos nós tomamos conhecimento das palavras “entusiasmadas” proferidas pelo arcebispo católico de Moscou, Dom Paolo Pezzi (foto), sobre a unidade canônica que “nunca esteve tão próxima” porque “nada nos separa sobre questões da bioética, família, proteção da vida. Também em matéria de doutrina, as duas igrejas estão essencialmente de acordo”.

Alguns, e eu me incluo, ficaram ligeiramente confusos com isso. Como poderiam os católicos e ortodoxos russos, justamente os russos que são os maiores opositores de qualquer relação ecumênica com Roma, estarem praticamente unidos?


Acontece que agora as palavras de Dom Pezzi são repetidas por alguém com força moral para falar pela Igreja Ortodoxa Russa – Metropolita Hilarion.

O metropolita Hilarion (foto) é a autoridade executiva nos assuntos exteriores da Igreja Russa, ocupando o cargo que era do atual patriarca russo.
Numa entrevista publicada recentemente no “Der Spiegel”, o arcebispo russo responde:

As Igrejas Ortodoxa e Católica possuem apenas algumas diferenças na teologia e modelos de organização da Igreja. Assim, não reconhecemos a suprema autoridade do Papa de Roma sobre outras Igrejas. Contudo, as diferenças entre a ortodoxia e o catolicismo não são fundamentais. Reconhecemos os sacramentos da Igreja Católica. Se um padre católico se torna ortodoxo, nós o recebemos como um padre. Em relação às Igrejas Protestantes, não as reconhecemos como Igrejas, vendo-as apenas como comunidades cristãs. Temos diferenças fundamentais em teologia e ética.

Sinceramente eu não sei até onde essa visão positiva da Igreja Católica é partilhada pelos bispos russos. A afirmação positiva sobre as ordens e sacramentos católicos já é um avanço porque, diferentemente das Igrejas Ortodoxas Gregas (Constantinopla, Grécia, Chipre, Jerusalém, etc), as igrejas eslavas não suportavam, até onde sei, a validade dos sacramentos católicos. Alguns bispos ortodoxos eslavos re-ordenavam padres católicos e chegavam até mesmo a re-batizar alguns convertidos.

É possível que o não-reconhecimento dos sacramentos católicos por parte de alguns bispos eslavos fosse um resquício da época comunista, onde se nutria uma aversão acima do normal pela Igreja Católica por parte dos ortodoxos.

É justamente o fim dessa era glacial no relacionamento entre católicos e ortodoxos russos que torna possível uma declaração assim do metropolita ortodoxo e do arcebispo católico.
Contudo, as diferenças não estão restritas apenas ao que listou o Metropolita. Os ortodoxos possuem uma visão diferente, por exemplo, da trindade. E isso é fundamental. A bíblia ortodoxa é diferente, incluindo até o salmo 151, Lamentações de Manasses, etc. A noção de alguns dogmas marianos é diferente, ainda que não seja opositiva.

Recentemente o Patriarcado de Moscou, pela primeira vez na história, publicou um livro com discursos e outros textos do Santo Padre Bento XVI. A introdução é assinada pelo metropolita Hilarion.

Na sua introdução, o bispo fala sobre os valores fundamentais da Europa, da incompatibilidade entre a nova visão européia de sociedade e os valores cristãos. É justamente na área de promoção dos valores autenticamente cristãos que ortodoxos e católicos estão unidos, sendo esta via que se pretende percorrer rumo ao pleno entendimento em outras esferas da realidade eclesial.

O compromisso pelos valores cristãos da Europa é alicerce do diálogo ortodoxo-católico. Depois de anos presa – e muitas vezes conivente – pelo regime comunista, a Igreja Ortodoxa Russa renasce e carrega consigo o testemunho de uma comunidade habituada a viver sob um regime totalitário e anti-religioso, mas carrega também o testemunho da superação desse mesmo regime.

É evidente que problemas persistem no caminho e que o otimismo dos dois bispos continua sendo exagerado. Mas se há um compromisso pelos valores mais fundamentais, já é um caminho aberto para o entendimento e respeito mútuo, especialmente na questão da Ucrânia, onde a Rússia permanece intolerante por motivos puramente políticos, sendo joguete nas mãos do Kremlin.

Algum dia poderá a Igreja Ortodoxa encontrar, uma vez mais, lugar na Igreja Católica? Sim, mas não antes de uma profunda adaptação, para dizer o mínimo, da Igreja Ortodoxa.
Ah, mas por que da Igreja Ortodoxa? Ora, ela tem problemas com o papado, nós não. Ela tem reservas sobre alguns dogmas, nós não. Não há, do ponto de vista dogmático, nada que os ortodoxos possam nos oferecer. Eles nunca proclamaram nenhum dogma desde o século X, época anterior ao cisma. Há sim um patrimônio litúrgico e espiritual, mas não dogmático.

Os ortodoxos, na sua maioria, não discordam dos dogmas católicos pós-cisma, eles simplesmente não aceitam um dogma proclamado fora da sua comunhão. Por isso o diálogo, para o terror dos seus adversários, é o mais importante para tornar os dogmas católicos claros aos olhos ortodoxos.
Rezemos. E que continuem otimistas.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Questionamentos levantados

Respostas...

Venho recebendo com certa “insistência” comentários descontentes de algumas pessoas que, sem medo, classificaria como “Amigos da Campanha da Fraternidade”. Sim, já faz tempo que eles aparecem por aqui comentando sobre os benefícios infinitos da campanha que nos rouba a quaresma.
Pois bem, há momentos que não conseguimos mais ignorar os clamores ensurdecedores desse grupo majoritário.

Mara escreveu:

A proposta da CF é construir novas relações, com princípios de justiça, pois as atuais estão corroídas pela individualismo, egoísmo, consumismo e sbjetivismo.
É só olhar ao redor para constatarmos que somente as nossas orações e sacramentos, SOMENTE, não são suficientes para que nossos irmãos em Cristo, sofredores, descriminados, violentados, excluídos de toda e qualquer oportunidade até de direitos básicos como comida, um teto, saúde, escola... Eu tenho certeza que este não foi o Plano de Deus para estes nossos irmãos e por isso nós, Igreja, temos a obrigação de colaborar na promoção de pessoas que desconhecem outra forma de viver, que sentem-se a margem desta sociedade do ter e do poder e devolvem à sociedade toda sua revolta e ignorância através da violência que alimentamos com o nosso egoísmo e arrogância. Se duvidas que existem pessoas assim, vá conhecer a periferia, os curtiços e favelas. Ira se surpreender. Nâo sou a favor de dar somente o que comer, isso não dá dignidade a niguém, muito pelo contrário, mas educar, partilhar conhecimentos, melhorar a auto-estima e transformar em Jesus Cristo, pois é Ele quem transforma, somos apenas instrumentos, pode fazer a diferença. E não se esqueça, irmão, atrás de um adulto há sempre duas a três crianças nas mesmas condições e que se tornarão adultas, se a violência permitir. Nâo seríamos cristãos dígnos se virássemos as costas à esta situação e outras semelhantes. A CF é sim uma forma de acordarmos para: NO PROJETO DE DEUS TODOS FAZEMOS PARTE. E se a Quaresma é tempo de conversão, de mudança interior, de graça e salvação é tempo propício para refletirmos que parte ocupamos neste projeto e se estamos fazendo a nossa parte.
Não julgue a CF por uma ou outra Paróquia conduzida por "Padres Vermelhos". Ela é muito maior que isso.

Anônimo escreveu:

Alguns comentários feitos anteriormente, colocando a CF em xeque, só pode, com certeza, ser de pessoas desinformadas, ou, no mínimo, mal intencionadas. Viver a fé significa viver as realidades que nos cercam e precisam ser transformadas. Seguir uma religião significa, para nós católicos, assumir as realidade do mundo e buscar transforma-las segundo os desígnios salvíficos de Deus. E, em momento algum, informem-se melhor, a Igreja "reduz" a Quaresma. Ela, sim, faz é ampliar o sentido da Quaresma para outras dimensões da vida da pessoa humana. Reduzir é querer transformar a Quaresma a um intimismo medíocre e inconsequente. Reduzir é, sim, fechar os olhos e cair na tentação do individualismo e do egoísmo presentes neste mundo tão ausente de Deus. Aliás, temas como justiça e direitos impregnam a Bíblia. Para isto, é só lê-la. Façam isso para o bem das suas vidas e para o bem da fé!!!

Ronaldo escreveu:

O que ainda diferencia a Igreja Católica de outras vertentes cristãs que se omitem de ter uma visão social é a Campanha da Fraternidade. Quem não a entende, não entende o Brasil e suas particularidades. Não é oportunismo criticar o capitalismo desumano. É oportuno e necessário, ou teremos um mundo que já não poderá mais ser salvo do ponto de vista espiritual, de tão degeneradas e insensíveis estarão as pessoas; Campanha da Fraternidade SEMPRE, para o crescimento espiritual, sim, do povo brasileiro
Que Deus tenha piedade dos que se opõem à Campanha da Fraternidade

Iara escreveu:

uma pena que esse povo não entendeu o significado da c.f precisamos sim da campanha é o momento forte pra tomarmos consciencia que ainda vivemos numa sociedade onde existe exclusãoq que estão destruindo nossa amazonia . abramos nossas mentes e coração para acolher cada campanha que a igreja catolica ou o conic nos propõe

E o que eu respondo para todas essas pessoas?

Em primeiro lugar é preciso ter muita prudência no que eles – os comentaristas – escreveram. Mas tiro o chapéu, porque desta vez os comentários foram um pouco melhores que “você vai queimar no inferno” e coisas do gênero.
É preciso ter em mente que nunca, absolutamente nunca, me opus à ação social da Igreja. Se tivesse me posicionado contra a ação social da Igreja, então as críticas me seriam justas, ainda que parcialmente.
Infelizmente os comentaristas não conseguem realmente perceber o que estou criticando. Estou criticando a Campanha da Fraternidade.
Mas é possível separara uma coisa da outra? Não seria a Campanha da Fraternidade a prática da Ação social da Igreja? Não.
A Campanha da Fraternidade, longe de ser a aplicação da Doutrina Social da Igreja, é a aplicação de uma verdadeira salada ideológica e filosófica, uma tentativa de se colocar em prática “um outro mundo possível” de Marx.
Realmente não é possível ser cristão e não se importar com os cristãos. Já nas comunidades primitivas do cristianismo havia essa noção de uma verdadeira e autêntica Fraternidade:

Perseveravam eles na doutrina dos apóstolos, na reunião em comum, na fração do pão e nas orações. De todos eles se apoderou o temor, pois pelos apóstolos foram feitos também muitos prodígios e milagres em Jerusalém e o temor estava em todos os corações. Todos os fiéis viviam unidos e tinham tudo em comum. Vendiam as suas propriedades e os seus bens, e dividiam-nos por todos, segundo a necessidade de cada um. Unidos de coração freqüentavam todos os dias o templo. Partiam o pão nas casas e tomavam a comida com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus e cativando a simpatia de todo o povo. E o Senhor cada dia lhes ajuntava outros que estavam a caminho da salvação. (cf. Atos dos Apóstolos 2, 42-47).

Sabemos também que a “doutrina social está construída sobre o fundamento que foi transmitido pelos Apóstolos aos Padres da Igreja e, depois, acolhido e aprofundado pelos grandes Doutores cristãos. Tal doutrina remonta, em última análise, ao Homem novo, ao « último Adão que Se tornou espírito vivificante » (1 Cor 15, 45) e é princípio da caridade que « nunca acabará » (1 Cor 13, 8). É testemunhada pelos Santos e por quantos deram a vida por Cristo Salvador no campo da justiça e da paz”. (cf. Caritas in veritate, nº 12).

A Doutrina Social da Igreja é pautada no seguimento do Evangelho e na Doutrina da Igreja como um todo. Não é algo segregado, uma parte retalhada do corpo. Assim como a cabeça não difere do restante do corpo, sendo ambos um único indivíduo, a Doutrina Social da Igreja não pode pregar qualquer coisa que não seja a Doutrina Apostólica.

Infelizmente nós notamos essa separação violenta entre a doutrina da Igreja e a fraternidade sentimentalista e artificial proposta pela Campanha da Fraternidade. Longe de ser uma verdadeira fraternidade apostólica, é uma fraternidade revolucionária alicerçada em valores, poderíamos dizer de uma forma um pouco mais enfática, anticristãos.

Então importar-se com o próximo, querer dar condições de vida dignas a ele é uma atitude anticristã? Não, é claro que não! O problema não está na intenção fundamental, mas na forma como essa intenção é colocada em prática. Estamos presumindo que a intenção fundamental seja dar melhores condições de vida a todos.

É assustador pensar que a Igreja descobriu o cuidado com os pobres com a Campanha da Fraternidade, como se antes ela nunca tivesse construído asilos, orfanatos, hospitais, educandários, etc.

Pelo contrário, vemos que quanto mais avançam as idéias e, especialmente, os ideais da Campanha da Fraternidade, mais distante a sociedade brasileira fica dos valores fundamentais que essa mesma campanha tenta pregar.

E por que isso acontece?

É preciso sempre ter isso em mente quando se trata da ação social da Igreja, que o desenvolvimento humano pleno é marcado não somente por uma correta distribuição de bens e riquezas, mas pela presença da realidade transcendente. “Portanto, a vocação cristã a tal desenvolvimento compreende tanto o plano natural como o plano sobrenatural, motivo por que, « quando Deus fica eclipsado, começa a esmorecer a nossa capacidade de reconhecer a ordem natural, o fim e o ‘‘bem'' »” (cf. Caritas in Veritate, nº 18).

Deus não precisa realmente ser excluído da realidade, mas apenas “eclipsado”, para que a sociedade se degrade.

Se os comentaristas acima e todos aqueles que estão lendo este texto puderem fazer uma análise pontual dos textos da Campanha da Fraternidade deste ou de qualquer outro ano, poderão perceber que há de fato um eclipse de Deus. Como exemplo eu retransmito algumas análises do texto da CF deste ano, de Jorge Ferraz e que subscrevo integralmente. O original, que deve ser lido, está aqui.

Na oração, a palavra “conversão” aparece duas vezes. É, aliás, digna de louvor, pois fala em esmola, jejum, oração e penitência. Já no Texto Base da CF/2009, a coisa muda um pouco de figura, pois a palavra “conversão” aparece nele apenas 16 vezes (sendo uma na indexação e duas na já citada oração; sobram 13 citações ao longo do texto), num documento de modestas 176 páginas! “Pecado” (e derivados) aparece 10 vezes (e “pecado original”, nenhuma). “Redenção”, “Redentor”, “Sacrifício”, “Calvário”, “Missa”, “Confissão” (ou “Penitência” no sentido do Sacramento) não aparecem uma única vez!! Já “social” (e derivados) aparece 119 vezes, “comunidade”, 52 vezes, “economia” (e derivados), 54 vezes, “política” (e derivados), 65 vezes, “trabalho” (e derivados), 87 vezes, “povo” (e derivados), 43 vezes. E chega que não vou procurar mais.
Cabe perguntar: porventura isso é um documento católico? Na Bibliografia, os “documentos da Igreja” citados ocupam menos de uma única página (ou uma página e meia, se formos considerar como tais os documentos da CNBB…), de um total de cinco. Os títulos dos capítulos, vistos pelo índice, falam sobre coisas como “vida segura”, “pedagogia do controle”, “pirâmide social”, “tipos de violência”, “políticas públicas de segurança”. Tais baboseiras ocupam as primeiras setenta páginas do documento. A partir da página 77, começa-se enfim a falar em Deus mas, já na página 99 (ou seja, pouco mais de vinte páginas depois), voltam os títulos toscos contendo coisas como “ações educativas”, “em busca de um novo modelo penal”, “crimes não convencionais”, e pronto. Depois disso, só anexos. É vergonhoso que um documento de 176 páginas, de uma Conferência Episcopal, reserve pouco mais de 20 páginas para falar sobre coisas católicas (e isso a julgar pelo índice - nem tenho certeza se a segunda parte do documento é mesmo católica como dá a parecer…).

(cf. FERRAZ, Jorge - O Papa apóia a Campanha da Fraternidade?)

Outro texto de Jorge Ferraz, cuja leitura é vivamente recomendada, é uma pequena análise histórica das CFs. Cito, deste texto, o trecho abaixo:

Eu posso até conceder - embora particularmente seja de opinião frontalmente contrária - que haja alguma relevância n’alguns dos temas escolhidos pela CNBB para serem tratados na Campanha da Fraternidade (embora parte considerável deles seja simplesmente uma porcaria). No entanto, qualquer um há de convir que mesmo o melhor dos temas (da nossa amostragem acima, é de longe o de 1974, único a falar em “vida da graça”…) não nos ajuda (ao contrário, atrapalha) a “imitarmos, de algum modo, o rigoroso jejum de quarenta dias que Jesus Cristo observou no deserto, e (…) nos prepararmos, por meio da penitência, para celebrar santamente a festa da Páscoa”, que, afinal, são os motivos pelos quais foi instituída a Quaresma!
Isto é uma evidência impossível de ser negada: a Campanha da Fraternidade não ajuda nada, absolutamente nada, os católicos a viverem melhor a Quaresma. O problema não está somente nos temas (horríveis) algumas vezes escolhidos; afinal de contas, dêem uma olhada nos cartazes de todas as Campanhas da Fraternidade desde 1964 até o ano presente: qual a relação que existe entre qualquer uma delas e a Quaresma? No meio do lixo, há sem dúvidas temas que pode[ria]m ser bem explorados (como “A Família”, 1994; ou a própria “Fraternidade e Defesa da Vida”, do ano passado). No entanto, nenhum, nenhum deles, nem mesmo os melhores, tem relação direta com a Quaresma.
(Cf. FERRAZ, Jorge - Mais sobre as Campanhas da Fraternidade)

O que a CF faz, praticamente em todas as suas versões, é reduzir a dimensão humana a algo puramente horizontal, ao aqui e agora somente. E isso tem resultados profundos na espiritualidade dos católicos brasileiros, ainda que eles não tenham plena consciência desta planificação da sua própria existência. Prova desse “eclipse de Deus”, promovido oficiosamente pelas CFs, é visível quando lemos comentários do tipo:

(...) Reduzir é querer transformar a Quaresma a um intimismo medíocre e inconsequente
(...)É só olhar ao redor para constatarmos que somente as nossas orações e sacramentos, SOMENTE, não são suficientes para que nossos irmãos em Cristo, sofredores, descriminados, violentados, excluídos de toda e qualquer oportunidade até de direitos básicos como comida, um teto, saúde, escola...


A autêntica fraternidade cristã é aquela que considera o plano transcendente em cada ser humano e pauta a justiça social na construção de uma sociedade que ama e glorifica a Deus, porque sem Deus “o desenvolvimento é negado ou acaba confiado unicamente às mãos do homem, que cai na presunção da auto-salvação e acaba por fomentar um desenvolvimento desumanizado. Aliás, só o encontro com Deus permite deixar de « ver no outro sempre e apenas o outro », para reconhecer nele a imagem divina, chegando assim a descobrir verdadeiramente o outro e a maturar um amor que « se torna cuidado do outro e pelo outro »”. (cf. Caritas in Veritate, nº11).

E isso requer uma compreensão profunda da nossa própria realidade como Igreja. A Igreja não é um grupo de pessoas engajadas ou uma entidade sócio-caritativa.

Mesmo quando tentamos ser indulgentes, não é possível ignorar os estragos que a CF está fazendo no Brasil há mais de 40 anos. Perdemos completamente o sentido da Quaresma, transformando-a num momento onde devemos tentar alcançar o “outro mundo possível” que é diferente do Reino de NS Jesus Cristo, porque não é pautado na autêntica fraternidade muito menos na caridade evangélica, mas numa ideologia que, nos meios sociais, já se provou falida.

Para concluir, me agradaria muito participar de uma Campanha da Fraternidade que levasse em conta a verdadeira Doutrina Social da Igreja. Contudo, mesmo que essa CF ideal existisse, coisa que duvido, não acredito que o período da Quaresma é o ideal para uma campanha de porte nacional. Quaresma é tempo litúrgico para a... Quaresma! E deve ser vivido como tal.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Duas formas de se compreender Deus

Reflexões de um Carmelita sobre a missa tradicional

O pequeno texto abaixo é de autoria do frei carmelita Camilo Maccise. Frei Camilo Maccise foi Superior Geral dos Carmelitas Descalços durante doze anos. Durante vários anos, foi presidente da União dos Superiores Gerais em Roma. Teve participação ativa na realização do Projeto Palavra-Vida. Foi assessor no encontro dos Carmelitas Descalços, realizado no mês de Outubro de 2007, sobre o tema: "O Documento de Aparecida e o seu alcance para a Espiritualidade Carmelitana".

Impossível dizer "Amén".

Frei Camilo Maccise

Em meados de outubro deste ano, presidida pelo prefeito da Signatura Apostólica, foi realizada na Basílica de São Pedro uma missa em latim no rito pré-conciliar. No mês passado, Vida Nova (site do tipo Adital, nt) refletiu corretamente sobre o que realmente está por trás da polêmica sobre o uso da Missa Tridentina. Não é apenas o ritual ou questões lingüísticas, mas abordagens teológicas opostas: "Duas maneiras muito distintas de compreender Deus, a Igreja, o mundo, o homem, as relações sociais, a liberdade de consciência".
Os defensores da Missa de São Pio V invocam a tradição do Missal tridentino, que é um "híbrido de elementos medievais franco-germânicos que foram adicionados a um núcleo romano do final do século VI ", enquanto que o Missal de Paulo VI está mais próximo da velha regra dos Padres da Igreja. Além do apego doentio a uma forma de celebrar a Eucaristia, surpreende-se que queiram fazer em latim, uma língua morta, que não compreendem a maioria daqueles que pedem seu uso. Com razão, um bispo americano decidiu exigir um exame de latim aos sacerdotes que pretende utiliza-lo.
Nos anos 70, um bispo mexicano, pressionado por um grupo tradicionalistas, aceitou celebrar uma missa em latim, mas fez a homilia também nessa língua. No final, os ouvintes reclamaram da homilia em latim porque não haviam entendido. O bispo respondeu: Quando me pediram a celebração, eu pensei que sabiam latim".Nunca mais solicitaram o mesmo.
Já Paulo advertia que, se não houvesse um intérprete quando alguém falava em línguas nas assembléias cristãs, era impossível dizer "Amén" (= Assim seja), por não saber se o que havia sido dito era bom ou mau.

***
Não surpreende o texto, evidentemente. É o texto de um latino-americano. O que nos surpreende, longe de ser o fanático ranço contra tudo aquilo que é "pré-conciliar", são justamente as suas palavras iniciais - abordagens teológicas opostas.

O próprio frade reconhece que há entre a missa antiga e a nova "duas maneiras muito distintas de compreender Deus, a Igreja, o mundo, o homem, as relações sociais, a liberdade de consciência". Nisso há uma trágica convergência entre o religioso progressista e os tradicionalistas "doentes".

De fato, são duas abordagens muito divergentes de compreender Deus e o mundo. Na tradicional, configura-se a presença do altíssimo de forma destacada, reunindo-se sacerdote e povo para prestar um culto a Deus. Na moderna, há um esquecimento fenomenal não só da natureza sacrifical da missa, mas de Deus como um todo.Na missa tradicional o católico é levado, por meio da beleza bimilenar cristalizada num rito digno e majestoso, a um contato verdadeiro e íntimo com Deus. É uma missa, uma liturgia fundamentalmente contemplativa. Infelizmente, os homens de hoje, incluindo-se os frades, estão perdendo cada vez mais a capacidade de contemplar, de unir-se no silêncio da oração ao Criador de todas as coisas.

A questão do idioma - um verdadeiro cavalo de batalha contra missa antiga - é ridícula se tomamos como argumento o que este religioso nos propõe.Longe de tornar o idioma parte do culto, Frei Camilo apenas instrumentaliza a língua, como se ela não tivesse em si um valor litúrgico. Tal como há na Igreja latina um rito latino, é preciso que exista uma língua latina, que não está morta, mas viva dentro do seio da Santa Madre Igreja, ainda que todos os seus filhos neguem.

Se ao religioso causa surpresa o pedido pela missa antiga em latim, a nós causa revolta o fato envolvendo o bispo que ele nos relata.Não sabe Frei Camilo e o seu bispo que a homilia, salvo exceções, sempre era em vernáculo? Não ouviam os pobres espanhóis as doces palavras de João da Cruz em vernáculo? Os brasileiros que puderam conhecer Frei Galvão certamente guardaram em seus corações as homilias, em vernáculo, deste santo. Que dizer das palavras poderosas de Antonio Vieira, sermões escritos com a paixão e zelo de um homem profundamente apaixonado pela Igreja!

O uso do vernáculo, embora contendo as suas vantagens pedagógicas, não é o "céu na Terra" como pretende Frei Camilo. Seu uso revelou-se uma faca de dois gumes usada para, por um lado, fazer compreender a oração e, por outro, distorcê-la - pro multis!

Pergunto-me se Frei Camilo consegue alcançar a profundidade das obras de S João da Cruz, em vernáculo, usando desta análise negativa e tão simplória da espiritualidade tradicional. O contexto de João da Cruz e tantos outros santos e santas é a missa tradicional que na opinião de Frei Camilo não passa de um "híbrido de elementos medievais franco-germânicos que foram adicionados a um núcleo romano do final do século VI ".

Que análise fria, impessoal, repulsiva! Como podem negar o seio que nutriu, por séculos e séculos, a espiritualidade dentro da Igreja?Aproveito para refletir sobre alguns bispos de hoje que também estão confusos quanto aos motivos dos poucos pedidos da missa tradicional em suas dioceses. Não se trata de um apego "doentio" ao latim, mas sim uma tentativa de viver essa outra forma de "de compreender Deus".E esta outra forma é diferente da forma atual? Não deveria ser, mas toda vez que presencio abusos litúrgicos, pregações distorcidas da Palavra de Deus, politicagem no púlpito, sou conduzido a uma conclusão irritante - sim, é diferente.

No final do seu texto o religioso faz justamente uma citação que coloca uma palavra tão comum na nossa liturgia, abusada ou não - Amém! Quantos católicos de hoje sabem o que amém significa? Não estaria na hora de, seguindo a hermeneutica do frei, trocarmos essas palavras obscuras e sem sentido? Não estaria na hora, também, de traduzir a bíblia com um vocabulário mais simples? Etc...

Para concluir, penso que um novo João da Cruz é preciso, para reformar a vida relaxada dos carmelitas de hoje. Fui justamente o descompasso da Ordem Carmelita que levou o jovem Frei João de São Matias a decepcionar-se com ela e, tempos mais tarde, a reformá-la.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Madre Angélica sobre a Missa Tradicional

A Opinião de uma Religiosa Católica


Do blog de Raymond Arroyo, um dos chefes da rede de TV católica EWTN.
Questionado várias vezes sobre a opinião de Madre Angélica sobre a missa tradicional, o editor nos dá algumas pistas, extraídas de um livro de orações editado pela religiosa norte-americana.

Madre Angélica é considerada a mulher católica mais influente do mundo e fundadora do canal EWTN. Em 2002 ela deixa a presidência do canal, pois se iniciou contra ela um processo de perseguição por parte de alguns bispos católicos liberais dos EUA (leia-se Cardeal Mahony, que teve uma das suas “obras” questionadas publicamente pela freira). Desde então a EWTN é dirigida por leigos e é um canal leigo, mas comprometido 110% com a doutrina da Igreja.

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A Missa Tradicional Romana

O latina era uma língua perfeita para a missa. É a língua da Igreja, que nos permite rezar uma oração verbal sem distrações.
Percebam, o propósito da Missa é rezar e estar associado ao crucifixo e ao glorioso banquete que nós participamos na Santa Comunhão. Ele está lá. Mas muito é desprezado com o vernáculo.
Durante a missa latina você dispunha de um missal se desejasse segui-la em inglês. Era quase místico. Dava-lhe o conhecimento do paraíso, da humildade impressionante de Deus que se manifesta sob a forma de pão e vinho. O amor que Ele tinha por nós, Seu desejo de permanecer conosco é incrível. Você podia se concentrar naquele amor, porque você não se distraía com o seu próprio idioma. Você podia ir a qualquer lugar do mundo e você sempre sabia o que estava acontecendo. Era contemplativo porque conforme a missa prosseguia você podia fechar seus olhos e visualizar o que realmente estava acontecendo. Você podia sentir. Você podia olhar para o leste e perceber que Deus havia vindo e estava realmente presente. Da forma como é hoje, com o sacerdote encarando as pessoas, torna-se algo entre o sacerdote e as pessoas. Frequentemente é apenas um tipo de reunião e Jesus é esquecido.
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Desde a publicação do Motu Proprio a rede EWTN, em completa sintonia com o desejo do Santo Padre, vem exibindo quase que mensalmente uma missa solene na forma extraordinária do Rito romano. Bem diferente de outras redes de TV que preferem fazer “festa na roça” com a missa... Acho que nem todo mundo é “lindo e santo”, não é mesmo?

Bento XVI aos Bispos do Brasil


Confirmar os irmãos na fé? Acho que não...

“Simão, Simão, eis que Satanás vos reclamou para vos peneirar como o trigo; mas eu roguei por ti, para que a tua confiança não desfaleça; e tu, por tua vez, confirma os teus irmãos”. (Lc 22, 31-32).

Os bispos brasileiros estão realizando suas visitas ao Sucessor de Pedro que “que de braços abertos vos acolhe a todos vós”. Vários grupos regionais da CNBB já partiram e retornaram de Roma, após longa peregrinação pelas Basílicas e, mais importante, pelos dicastérios Pontifícios.

Qual a finalidade da visita Ad Limina? Fortalecer os laços de amor e afeto que unem o Bispo de Roma aos bispos locais? Sim, mas não é só isso. A principal função da visita, realizada obrigatoriamente a cada 5 anos (exceto se você for Dom Casaldáliga, porque vai poder ignorar isso e aparecer se quiser, quando quiser) é fortalecer o braço de Pedro nas dioceses.

Alguns relutam em dizer isso, mas é fato – as visitas Ad Limina são necessárias para manter o poder do Papa sobre os bispos. Que mal há em admitir isso? Bom, talvez o orgulho de alguns prelados não permita tal constatação.

Mas vamos ao que interessa. As visitas Ad Limina brasileiras estão me deixando envergonhado. Sim envergonhado, pois vejo Pedro não tendo meios de “confirmar” seus irmãos na fé, mas tendo que “introduzi-los” na fé. Cada alocução pública do pontífice aos grupos brasileiros torna-se praticamente uma aula de catecismo. Imagine isso! Catecismo aos bispos!

Bento XVI precisa “reforçar” dizendo que “a função do presbítero é essencial e insubstituível para o anúncio da Palavra e a celebração dos Sacramentos, sobretudo da Eucaristia, memorial do Sacrifício supremo de Cristo, que dá o seu Corpo e o seu Sangue” e pede aos bispos do Nordeste 2 que “na vossa solicitude pastoral e na vossa prudência, procurais com particular atenção assegurar às comunidades das vossas dioceses a presença de um ministro ordenado. Na situação atual em que muitos de vós sois obrigados a organizar a vida eclesial com poucos presbíteros, é importante evitar que uma tal situação seja considerada normal ou típica do futuro”.

Mesmo diante de uma crise vocacional e sacerdotal não seria necessário lembrar o bispo do lugar proeminente do sacerdote na vida da comunidade.
Enfrentar os problemas correntes da vida diocesana, aconselhando, é uma coisa. Mas o que Bento XVI está fazendo, sutilmente, é alertar aos bispos do curso inadequado de algumas práticas pastorais vigentes, que estão contribuindo para uma secularização do povo católico.

Atualmente há uma nova geração já nascida neste ambiente eclesial secularizado que, em vez de registrar abertura e consensos, vê na sociedade o fosso das diferenças e contraposições ao Magistério da Igreja, sobretudo em campo ético, alargar-se cada vez mais. Neste deserto de Deus, a nova geração sente uma grande sede de transcendência”.

E o tapa mais violento veio com a recordação das bodas de prata da instrução Libertatis nuntius, sobre a Teologia da Libertação. Recordar é viver!

A Teologia da Libertação foi a “heresia singular” mais combatida por João Paulo II e, osmose, pelo cardeal Ratzinger. Enquanto o Papa polonês se fazia visível pelo mundo todo o cardeal redigia as condenações dos artífices dessa falsa teologia.

Envergonha-me saber que o sucessor de Pedro ainda precisa fazer este tipo de admoestação, mesmo depois de 25 anos da condenação da Teologia da Libertação. Se Pedro “relembra” é porque ela ainda está viva (e sabemos que está) e ativa.

Rezemos pelo Papa e pelos bispos do Brasil – o primeiro, para que não tenha medo dos lobos; os demais, para que deixem de morder.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Veja e Aprenda!


Clique no botão "On-demand" e vai ter acesso a todos os clipes da reunião dos bispos americanos.

Gays não vão para o céu! (?)



Cardeal Mexicano afirma. Mas será mesmo?

Corre por ai que o cardeal mexicano Javier Lozano Barragan, ex-presidente o Pontificio Conselho para a Saúde, afirmou que os "homossexuais e transsexuais não entrarão no Reino dos Céus".

Certamente uma frase de um duplo impacto. Primeiro, o impacto psicológico de uma negativa tão clara num mundo onde tudo deve ser positivo e politicamente correto. Segundo, uma frase impactante no seu sentido teológico, se a levarmos ao pé-da-letra.

Se a homossexualidade é uma tendência psicológica reversível ou não, se é um fator genético ou não, não sei dizer, mas o que realmente importa é como o homossexual, masculino ou feminino, vive a sua vida.

O cardeal não faz qualquer distinção explícita entre os homossexuais obstinados em viver a homossexualidade e os homossexuais que vivem a castidade (em número esmagadoramente inferior). Mas deixa uma declaração que, talvez, nos faça entender melhor a sua declaração anterior:

"Talvez eles não sejam culpados (da sua homossexualidade, nt), mas agindo contra a dignidade do corpo eles certamente não entrarão no reino dos céus".

Como escreveu Torinielli, uma coisa é o pecado, outra bem diferente é o pecador. Se há arrependimento, então a Igreja terrestre o reconcilia com Cristo. Se não há arrependimento, bom, então Barragam está certo porque a homossexualidade é incompatível com a santidade.

Se o homossexual, que vive a castidade, encontra-se excomungado "latae sententiae" desde sempre (é o que a mídia européia está popularizando, com o auxílio da entrevista de Barragan), então deduzimos que há seres humanos de 2ª classe, cuja Redenção não se aplica. Isso se agrava se a homossexualidade estiver mais inclinada a fatores alheios ao controle, como a genética. Mas não sou especialista para definir a raiz da homossexualidade como genética ou psicológica.

É, caro leitor, um assunto polêmico.

Tornielli crê que foi tudo um erro de transliteração da entrevista. Espero que sim.Uma coisa é o pecado, outra é o pecador - ainda mais se o pecador estiver arrependido e decidir viver uma vida santa.

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