Acredito que todos nós tomamos conhecimento das palavras “entusiasmadas” proferidas pelo arcebispo católico de Moscou, Dom Paolo Pezzi (foto), sobre a unidade canônica que “nunca esteve tão próxima” porque “nada nos separa sobre questões da bioética, família, proteção da vida. Também em matéria de doutrina, as duas igrejas estão essencialmente de acordo”. Alguns, e eu me incluo, ficaram ligeiramente confusos com isso. Como poderiam os católicos e ortodoxos russos, justamente os russos que são os maiores opositores de qualquer relação ecumênica com Roma, estarem praticamente unidos?
O metropolita Hilarion (foto) é a autoridade executiva nos assuntos exteriores da Igreja Russa, ocupando o cargo que era do atual patriarca russo.Numa entrevista publicada recentemente no “Der Spiegel”, o arcebispo russo responde:
As Igrejas Ortodoxa e Católica possuem apenas algumas diferenças na teologia e modelos de organização da Igreja. Assim, não reconhecemos a suprema autoridade do Papa de Roma sobre outras Igrejas. Contudo, as diferenças entre a ortodoxia e o catolicismo não são fundamentais. Reconhecemos os sacramentos da Igreja Católica. Se um padre católico se torna ortodoxo, nós o recebemos como um padre. Em relação às Igrejas Protestantes, não as reconhecemos como Igrejas, vendo-as apenas como comunidades cristãs. Temos diferenças fundamentais em teologia e ética.
Sinceramente eu não sei até onde essa visão positiva da Igreja Católica é partilhada pelos bispos russos. A afirmação positiva sobre as ordens e sacramentos católicos já é um avanço porque, diferentemente das Igrejas Ortodoxas Gregas (Constantinopla, Grécia, Chipre, Jerusalém, etc), as igrejas eslavas não suportavam, até onde sei, a validade dos sacramentos católicos. Alguns bispos ortodoxos eslavos re-ordenavam padres católicos e chegavam até mesmo a re-batizar alguns convertidos.
É possível que o não-reconhecimento dos sacramentos católicos por parte de alguns bispos eslavos fosse um resquício da época comunista, onde se nutria uma aversão acima do normal pela Igreja Católica por parte dos ortodoxos.
É justamente o fim dessa era glacial no relacionamento entre católicos e ortodoxos russos que torna possível uma declaração assim do metropolita ortodoxo e do arcebispo católico.
Contudo, as diferenças não estão restritas apenas ao que listou o Metropolita. Os ortodoxos possuem uma visão diferente, por exemplo, da trindade. E isso é fundamental. A bíblia ortodoxa é diferente, incluindo até o salmo 151, Lamentações de Manasses, etc. A noção de alguns dogmas marianos é diferente, ainda que não seja opositiva.
Recentemente o Patriarcado de Moscou, pela primeira vez na história, publicou um livro com discursos e outros textos do Santo Padre Bento XVI. A introdução é assinada pelo metropolita Hilarion.
Na sua introdução, o bispo fala sobre os valores fundamentais da Europa, da incompatibilidade entre a nova visão européia de sociedade e os valores cristãos. É justamente na área de promoção dos valores autenticamente cristãos que ortodoxos e católicos estão unidos, sendo esta via que se pretende percorrer rumo ao pleno entendimento em outras esferas da realidade eclesial.
O compromisso pelos valores cristãos da Europa é alicerce do diálogo ortodoxo-católico. Depois de anos presa – e muitas vezes conivente – pelo regime comunista, a Igreja Ortodoxa Russa renasce e carrega consigo o testemunho de uma comunidade habituada a viver sob um regime totalitário e anti-religioso, mas carrega também o testemunho da superação desse mesmo regime.
É evidente que problemas persistem no caminho e que o otimismo dos dois bispos continua sendo exagerado. Mas se há um compromisso pelos valores mais fundamentais, já é um caminho aberto para o entendimento e respeito mútuo, especialmente na questão da Ucrânia, onde a Rússia permanece intolerante por motivos puramente políticos, sendo joguete nas mãos do Kremlin.
Algum dia poderá a Igreja Ortodoxa encontrar, uma vez mais, lugar na Igreja Católica? Sim, mas não antes de uma profunda adaptação, para dizer o mínimo, da Igreja Ortodoxa.
Ah, mas por que da Igreja Ortodoxa? Ora, ela tem problemas com o papado, nós não. Ela tem reservas sobre alguns dogmas, nós não. Não há, do ponto de vista dogmático, nada que os ortodoxos possam nos oferecer. Eles nunca proclamaram nenhum dogma desde o século X, época anterior ao cisma. Há sim um patrimônio litúrgico e espiritual, mas não dogmático.
Os ortodoxos, na sua maioria, não discordam dos dogmas católicos pós-cisma, eles simplesmente não aceitam um dogma proclamado fora da sua comunhão. Por isso o diálogo, para o terror dos seus adversários, é o mais importante para tornar os dogmas católicos claros aos olhos ortodoxos.
Rezemos. E que continuem otimistas.








